este texto é pra você que ficou no meio do caminho e precisa voltar a respirar:
você que se sentiu por tanto tempo apaixonada, se deu tanto, doou tanto, foi tão de verdade, que agora apenas o vazio das coisas adormece na membrana mais dolorosa do peito. o vazio dela segurando sua mão antes de atravessar a rua; a risada dela na sua cabeça quando você contava alguma piada idiota; as roupas que ainda estão na sua casa, mas por impossibilidade do destino permanecerão aí por um bom tempo.
dói tanto.
respirar, contar pros pais, pras amigas, pra terapeuta.
você começa a sessão assim: “e aí que a gente terminou. e aí que a gente se perdeu e deixou de se amar”, segurando o choro, sem perceber que já existe um rio, um oceano, um mar inteiro ao seu redor. existe um mar de expectativas frustradas e decepções que dormem contigo. e o corpo dela longe do seu é o pior frio que você já sentiu na vida - e vai sentir, acredite.
sei que está se perguntando agora quando vai parar de doer - e, pra isso, não há resposta.
só sei que demora, que os dias parecem mais compridos, que as noites são insuportáveis e as estações do ano passarão preguiçosamente por você. que eu e você estamos no mesmo barco, ou melhor: casa, apartamento, espaço sideral. você não é a única a encerrar um ciclo aqui. há muita gente perdida, com dor, tentando não perecer. porque perder alguém é se perder também.
mas você ficou pelo caminho, e preciso te lembrar que seus pés precisam começar a construir, dia após dia, novas formas de conhecer o mundo.
que aos pouquinhos, vai tudo fazendo sentido, vai tudo se alinhando à maneira calma, tranquila e obrigatória com que a terra vai girando.
e a água em seu pescoço no começo de cada sessão de terapia vai diminuir, gradativamente.
as lágrimas que corriam com tanta facilidade darão espaço àquelas que correm esporadicamente, com espaços maiores e felicidades nos entremeios.
e por fim, que o oceano, este lugar de pânico, medo e falta de ar vai fazer sentido, porque você terá aprendido a respirar com calma e a nadar como quem, finalmente, compreende o milagre que é estar viva e poder seguir em frente.
comece a nadar, então.
- FREIRE, Daniela